A importância do acompanhamento da grávida
Como uma das jornalistas do Público que faz a cobertura da questão do fecho das maternidades, tenho vindo a formar opinião à medida que surgem novos argumentos e contra-argumentos. Tendo eu o dever de procurar ser imparcial, não deixo de pensar que há questões que vão ficando diluídas em textos que são publicados e que ajudam ao debate. Algumas delas são veiculadas em comentários dos leitores deste blogue.
No final dos anos 1980 houve a concentração de 200 para os actuais cerca de 50 blocos de parto e não houve contestação. Concorde-se ou não com os movimentos de protesto das populações locais e alguns dos seus argumentos (mais ou menos emocionais), podem ser vistos como um sinal de maior vitalidade de uma opinião pública local mais alerta aos problemas que a afectam, em contraste com a década de 1980.
Se é verdade que a vinda a Lisboa de 10 mil barcelenses foi patrocinada por um presidente da câmara municipal de oposição ao governo, pelos diálogos que fui tendo com os manifestantes para fazer a reportagem sobre a manifestação poucos me pareceram ter vindo só pela boleia, estando genuinamente convictos de que vão ficar prejudicados pelo encerramento.
Se o governo tem tantos argumentos técnicos convincentes devia tê-los levado até às povoações, disponibilizando peritos para responder a perguntas numa linguagem acessível. Por mais técnicos que sejam os argumentos, quase tudo é simplicável e não deve ficar escondido por detrás de um suposto hermetismo inalcançável ao comum dos mortais. Talvez se tenha querido evitar, como diz um leitor deste blogue, ainda mais contestação que adviria do fornecimento de informação antes do encerramento.
Há uma questão que tem ficado de fora do debate e me parece essencial na questão do nascer em segurança e que é realçada por um leitor: a questão dos cuidados pré e pós parto. Para quem não saiba, cabe aos centros de saúde acompanhar as gravidezes ditas normais. Quem não tem meios para recorrer ao sector privado está limitado a estes recursos, com os problemas de acessibilidade que se lhe reconhece : falta de médicos de família, dificuldade em marcar consultas, ...
O ministro da saúde apresenta como argumento para o encerramento de maternidades a alta mortalidade perinatal (entre a 22º semana de gestação e a primeira semana após o nascimento) em Portugal. Ora, tão importante como os partos, este valor reflecte os perigos do antes e depois do parto, altura em que deve haver mais cuidados.
O que me foi transmitido por profissionais do sector é que muitas grávidas, mal têm alta da maternidade depois do parto ficam sem acompanhamento, nomeadamente em coisas tão básicas como o ensino do aleitamento materno, agora tão em voga.
Os hospitais só seguem mulheres com indicação de risco, as grávidas normais são vigiadas pelo médico de família que no último mês têm dificuldade em vigiar seu o bem-estar fetal, por falta de meios e formação técnica para o fazer, critica a presidente da comissão da especialidade de enfermagem de saúde materna e obstétrica da Ordem dos Enfermeiros (OF), Lúcia Leite.
Coloquei no blogue a notícia da Lusa sobre a situação de Barcelos porque, como é explicado, o encerramento desta maternidade parece estar a levar à transferência de médicos para outras cidades. A reproduzir-se este comportamento noutras das maternidades que vão encerrar, a falta de acompanhamento pré e pós parto pode agravar-se. Fica também em causa a promessa do ministro da Saúde que garantiu publicamente que a vigilância obstétrica continuaria a ser feita nos sítios onde serão encerradas as maternidades. Imponderáveis ou falta de planeamento?
Catarina Gomes, jornalista da Secção Sociedade
Como uma das jornalistas do Público que faz a cobertura da questão do fecho das maternidades, tenho vindo a formar opinião à medida que surgem novos argumentos e contra-argumentos. Tendo eu o dever de procurar ser imparcial, não deixo de pensar que há questões que vão ficando diluídas em textos que são publicados e que ajudam ao debate. Algumas delas são veiculadas em comentários dos leitores deste blogue.
No final dos anos 1980 houve a concentração de 200 para os actuais cerca de 50 blocos de parto e não houve contestação. Concorde-se ou não com os movimentos de protesto das populações locais e alguns dos seus argumentos (mais ou menos emocionais), podem ser vistos como um sinal de maior vitalidade de uma opinião pública local mais alerta aos problemas que a afectam, em contraste com a década de 1980.
Se é verdade que a vinda a Lisboa de 10 mil barcelenses foi patrocinada por um presidente da câmara municipal de oposição ao governo, pelos diálogos que fui tendo com os manifestantes para fazer a reportagem sobre a manifestação poucos me pareceram ter vindo só pela boleia, estando genuinamente convictos de que vão ficar prejudicados pelo encerramento.
Se o governo tem tantos argumentos técnicos convincentes devia tê-los levado até às povoações, disponibilizando peritos para responder a perguntas numa linguagem acessível. Por mais técnicos que sejam os argumentos, quase tudo é simplicável e não deve ficar escondido por detrás de um suposto hermetismo inalcançável ao comum dos mortais. Talvez se tenha querido evitar, como diz um leitor deste blogue, ainda mais contestação que adviria do fornecimento de informação antes do encerramento.
Há uma questão que tem ficado de fora do debate e me parece essencial na questão do nascer em segurança e que é realçada por um leitor: a questão dos cuidados pré e pós parto. Para quem não saiba, cabe aos centros de saúde acompanhar as gravidezes ditas normais. Quem não tem meios para recorrer ao sector privado está limitado a estes recursos, com os problemas de acessibilidade que se lhe reconhece : falta de médicos de família, dificuldade em marcar consultas, ...
O ministro da saúde apresenta como argumento para o encerramento de maternidades a alta mortalidade perinatal (entre a 22º semana de gestação e a primeira semana após o nascimento) em Portugal. Ora, tão importante como os partos, este valor reflecte os perigos do antes e depois do parto, altura em que deve haver mais cuidados.
O que me foi transmitido por profissionais do sector é que muitas grávidas, mal têm alta da maternidade depois do parto ficam sem acompanhamento, nomeadamente em coisas tão básicas como o ensino do aleitamento materno, agora tão em voga.
Os hospitais só seguem mulheres com indicação de risco, as grávidas normais são vigiadas pelo médico de família que no último mês têm dificuldade em vigiar seu o bem-estar fetal, por falta de meios e formação técnica para o fazer, critica a presidente da comissão da especialidade de enfermagem de saúde materna e obstétrica da Ordem dos Enfermeiros (OF), Lúcia Leite.
Coloquei no blogue a notícia da Lusa sobre a situação de Barcelos porque, como é explicado, o encerramento desta maternidade parece estar a levar à transferência de médicos para outras cidades. A reproduzir-se este comportamento noutras das maternidades que vão encerrar, a falta de acompanhamento pré e pós parto pode agravar-se. Fica também em causa a promessa do ministro da Saúde que garantiu publicamente que a vigilância obstétrica continuaria a ser feita nos sítios onde serão encerradas as maternidades. Imponderáveis ou falta de planeamento?
Catarina Gomes, jornalista da Secção Sociedade